segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Baixa estima

Beto era o que qualquer um chamaria de "exemplo". As mães de seus amigos faziam aquelas comparações terríveis "você deveria ser como ele, filho maleducado!". E deveras burro, de fato. Dever? Mas dever o quê? Dever o quê a quem? Beto já havia se cansado de tantas comparações. E o pior, com ELE! E eram mentira.
Beto fazia-se otimista. Só ele e o travesseiro sabiam que não era bem assim. Na verdade, não era nada assim. Sempre achou que não era bom o suficiente, que poderia fazer melhor e que, se ele fizesse, não haveria de dar certo.
Obviamente - mentirosamente! -esses pensamentos iam voando pelo céu azul antes de encontrar-se com os amigos. O importante era sorrir (e enganá-los).
Os pais de Beto nunca estavam lá. Quer dizer, estar eles estavam, mas era como se não estivessem. Maldade falar assim, mas é que... Beto sabia como era. Estavam tão preocupados com o trabalho, com isso e com aquilo... menos com ele! Claro que toda a preocupação era em torno de Beto. Mas ele precisava de um minuto pra ele. Um minuto pra contar como foi o dia. Um minuto para contar o que estava certo. E contar o que não estava, também. Um minuto pra ele e com eles. Seria pedir minuto? Sim, talvez seria, já que existiam tantas outras coisas...
Baixa estima sempre andava com Beto. Beto sempre andava com Baixa estima. Seriam lá grandes amigos? Melhores amigos? Companheiros? Não importa.
...Estavam sempre juntos.


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Circuito de uma (quase) loucura

Travesseiro. Sonhos - e que sonhos! - E lá estava exatamente onde queria estar. Com toda aquela grama, tão verde e com um cheiro, como diriam os caipiras da cidade, de mata. E era um cheiro de mata que entrava pelo nariz e ia até... até o coração.
Vai para o coração e mexe conosco. Um cheio de mata tão forte que fazia parecer que ele era parte da mata. Não era mais apenas um observador daquele quadro - ele era o quadro e fazia parte dele -. Parte daquele céu ameaçando chover, parte daquele capim - e que vale mais que ouro! -, parte daquele boi atrás da montanha...
"Ora, mas qual boi? Endoideceu, foi?" disse a tua namorada quando soube do pensamento dele.
"Sim, é um boi! E dos bonitos!"
Em um lugar com muitos loucos como ele, explicara que "como pode não haver um boi naquela paisagem onde era explícito a existência do boi, exceto pelo fato de ele não estar ali?"
Foi preciso prendê-lo com a camisa. Já passara dos limites. Até a imaginação tem seu fim.
...Travesseiro!
___
Texto inspirado em "Circuito Fechado" de Ricardo Ramos.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Amizade

Você estando lá.
Eu estando aqui.
Engraçado é que
o sentimento não sai
de lá
e nem daqui.
Não tem mais jeito.
Uma vez amigas,
sempre amigas.
Quem dirá, então,
se forem melhores amigas.
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Quem dirá pra quem foi a homenagem?
Quem dirá que não ficou horrível?